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UM DESAFIO DE AMOR E COMPAIXÃO | Por Marcelo Maia

Minha leitura mais recente é o livro de Pedro Dulci, “Inteligência, pra quê? Como usar seu cérebro para a glória de Deus.” No cap. 6 lemos a respeito de uma das controvérsias mais marcantes da teologia do século passado, envolvendo Francis Schaeffer e Karl Barth. Peço licença para resumir o caso, pois penso ser uma lição urgente para uma nova geração de teólogos, especialmente os que usam redes sociais.

Schaeffer era, na época, um pastor ligado ao movimento fundamentalista americano e tentou um contato com Barth a fim de discutir alguns pontos teológicos dos quais discordava. Sem entrar no mérito de que estava certo, o que quero destacar aqui é o modo como Schaeffer abordou Barth. A carta enviada por Barth em resposta à tentativa de conversa já nos dá uma dimensão do problema. Aqui transcrevo partes dela:

“Estimado Sr. Schaeffer! Reconheço ter recebido sua carta de 28 de agosto e seu artigo “O Novo Modernismo”. No mesmo dia, o seu amigo J. Oliver Buswell escreveu-me de Nova York anexando uma resenha “A Teologia de Karl Barth”. Vejo que o que vocês pensam de mim é mais ou menos o que encontrei no livro de [Cornelius] Van Til sobre esse mesmo assunto. E vejo que você e seus amigos escolheram cultivar um tipo de teologia que consiste em uma espécie de criminologia; você está vivendo do repúdio e da discriminação de toda e qualquer criatura semelhante, cujas concepções não são inteiramente (ou numericamente) idênticas às suas perspectivas e declarações. Você está “caminhando sobre a rocha sólida da verdade” [como você mesmo diz de si]. Mas nós, pobres pecadores, não estamos. Eu não estou. Meu caso foi sinalizado como sem esperança alguma. O júri falou, o veredito foi proclamado e o acusado foi pendurado pelo pescoço, até que morreu nesta mesma manhã. (…)

Porém, por que e para qual propósito você deseja uma conversa futura? O herege foi queimado e enterrado para o bem de todos. Por que você quer perder mais do seu tempo (e o dele) falando com ele? (…) Regozije-se, senhor Schaeffer (e chamem a vocês mesmos de os “fundamentalistas” de todo o mundo!). Regozije-se e siga crendo em sua “lógica” (como no quarto artigo de seu credo) e em vocês mesmos como os únicos verdadeiros “crentes bíblicos”. Grite tanto quanto puder! Porém ore, e permita-me deixá-lo sozinho. As “conversas” são possíveis com pessoas de “mente aberta”. Seu texto e as críticas de seu amigo Buswell revelam o fato de sua decisão de fechar as portas. Não sei como lidar com um homem que vem me ver e falar comigo na qualidade de detetive/inspetor ou com o comportamento de um missionário que vai converter um pagão. Não, obrigado! Seu, sinceramente, […] Karl Barth.”

O que Barth estava desaprovando em Schaeffer era seu modo de fazer teologia, que mais se assemelhava a um detetive, alguém que sai a caça de heresias, tal qual o investigador sai em busca de evidências de um crime.

Nesse ponto Dulci levanta a pergunta: “Diante de tudo isso, eu me pergunto: por que, quando pensamos em apologética e evangelização em ambientes hostis à fé, o que nos vem à mente é um confronto, em vez de um desafio de amor?”[1]

Esse episódio mudou drasticamente a vida e o coração de Schaeffer, que deixou sua denominação e fundou na Suiça o L´Abri (perdoe-me o resumo). Schaeffer repensou sua maneira de fazer teologia, deixando de lado uma postura combativa e voltando-se para uma preocupação genuína com o relacionamento pessoal. Ou, nas palavras de Dulci, uma “ortodoxia dos relacionamentos”.

Fiz parte, durante pouquíssimo tempo, de um grupo de discussão no Facebook sobre Teologia Reformada. Nunca havia me manifestado até que resolveram falar sobre dons espirituais. Coloquei-me cordialmente como um pastor pentecostal e reformado, explicando o que queria dizer com isso. A reação de um dos membros do grupo foi surpreendentemente descortês, valendo-se inclusive de kkks e hahahas típicos do deboche em rede social. Frustrado com a impossibilidade de diálogo, retirei-me do grupo.

Aqui chegamos ao ponto que desejo ressaltar. Ser combativo e denunciar o erro jamais pode ser um fim em si mesmo. Cristãos verdadeiros devem exercer uma tolerância verdadeira, o que significa discordar em amor e respeito. Não somos obrigados a concordar com tudo o que ouvimos, mas devemos nos lembrar que do outro lado do argumento há uma pessoa, há uma história de vida e uma visão de mundo.

Mesmo ao apresentar o evangelho, devemos ganhar o direito de sermos ouvidos, o que significa que devemos ouvir o outro com paciência, com genuíno interesse pelo que ele pensa, por sua história e experiência. Não estamos aqui apenas para ganhar o debate, ou como Dulci escreveu, “somente por meio de uma formação espiritual profunda temos condições de desenvolver relações apologéticas que não se transformam em lutas de poder de quem tem mais razão[2]”.

 

[1] Dulci, Pedro. Inteligência pra quê? . Editora Mundo Cristão. Edição do Kindle.

 

[2] Idem.

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