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O professor e seus filhos | Por Gabriel Carvalho

Caso algum dia alguém faça uma lista com a classe de pessoas que mais sofre por conta de sua origem, por favor, avisem a essa pessoa para incluir os filhos de professores no topo da lista, por favor (pensando aqui, poderia incluir os filhos de pastores, também). O filho de um professor é alguém cobrado por todos os lados: pelos próprios pais, que se dedicam ao magistério, pela escola (principalmente se estudar na mesma instituição em que seu pai/mãe leciona), pelos colegas de classe e pela sociedade em geral. Ser filho de professor é ser cobrado. Cabe a nós, mestres, identificarmos isso e ajudá-los ao máximo. Vejamos como podemos fazer isso:

A primeira cobrança parte de nós mesmos. O nível de exigência que aplicamos a nossos filhos quanto às questões que envolvem o ensino e a educação de forma geral normalmente é bem maior que a exigimos de nossos alunos. Isso é natural: queremos que nossos filhos se tornem os melhores alunos e aprendam o máximo possível de conhecimento. Porém devemos ligar um sinal de alerta: nossos filhos não necessariamente possuem a nossa personalidade, ou a nossa forma de aprender, ou mesmo a nossa aptidão intelectual. O grande erro do professor é querer espelhar sua vida e talentos em seu filho ou filha. Ele/ela não precisa ser um mini professor.

A segunda cobrança vem da escola. Como muitas vezes os filhos estudam na mesma instituição que o pai/mãe leciona, por conta de bolsas de estudo, o contato e a associação daquele aluno com seu pai/mãe professor se torna automática, elevando de forma inconsciente o nível de cobrança por parte da direção da escola e dos outros professores. Caso o aluno cometa um ato de indisciplina, ou tire uma nota baixa, é fácil: é só ir na sala de professores ao lado e relatar o ocorrido. Por vezes a própria inteligência, respeito ou popularidade do pai/mãe professor expõe o aluno, que tem sua vida escolar (e muitas vezes pessoal) exposta a todos sem sua anuência. O professor precisa ter o cuidado de resguardar seu filho/filha de situações como esta, para que eles desenvolvam sua individualidade, sendo conhecidos não como “o filho do professor fulano”, mas por seus próprios nomes e méritos pessoais.

A terceira cobrança vem dos colegas de classe. É quase automático pressupor que um filho de professor seja um bom aluno. Ora, ele tem alguém para explicar a lição dentro de casa, 24h por dia! Isso traz pressão ao filho/filha, para que mantenha um alto nível de aproveitamente, e por vezes até mesmo ajude seus colegas no estudo das lições de casa, ou na preparação para alguma prova. É normal e saudável que nós cobremos um bom rendimento de nossos filhos na escola, mas isso não deve ser vinculado ao fato de que são nossos filhos, mas pelo próprio bem deles. Não é nossa reputação que deve receber prioridade nesse momento, mas o bom e correto desenvolvimento escolar de nossos filhos.

A quarta e última cobrança é da sociedade de forma geral. Como a vocação magisterial é bela e gratificante, uma dádiva para a sociedade, muitas vezes é esperado que os filhos de professores contribuam de forma semelhante à coletividade. Mesmo que não haja uma campanha expressa para que os filhos sigam os passos de seus pais no magistério, há uma cobrança implícita de que contribuam de alguma forma – seja qual for a profissão que escolham, deve sempre haver um aspecto “didático e cooperativo” em suas ações profissionais. Esse tipo de atitude é boa e válida quando é voluntária, e não forçada. Nenhum filho de professor deve nada à sociedade pelo que seu pai ou mãe fez. Eles devem contribuir como bons cidadãos que devem se tornar, e não por perspectiva genealógica.

Muitas vezes a correria da rotina magisterial nos faz perder o foco de nossos “alunos domésticos”. Nossos filhos precisam de nós, como pais em primeiro lugar, mas também como professores. Que a atenção que damos aos nossos alunos seja também dada a eles, para que se orgulhem de nós como pais, mas também por nossa vocação. Antes de ser professor/professora, você é pai/mãe! Seu filho precisa de você mais do que seus alunos. Lembre-se sempre disso! Deus abençoe a sua vida.

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