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“Meus alunos não entendem o que eu falo!” | Por Gabriel Carvalho

Pense por um momento em sua turma de Escola Dominical (ou outra iniciativa de ensino qualquer na igreja). Você possui dez, vinte, cinquenta, cem alunos? Agora imagine que é possível que dentre estes três, seis, quinze, trinta podem ter muita dificuldade em entender o que você está falando, ou até mesmo de expressar o que estão pensando.

Isso é o que aponta o INAF Brasil 2018 (Índice de Alfabetismo Funcional)1, estudo realizado pelo Instituto Paulo Montenegro, em parceria com o IBOPE Inteligência e a ONG Ação Educativa. Segundo os resultados do estudo, três em cada 10 brasileiros são analfabetos funcionais – incapazes de compreender textos e explicações simples, bem como de se expressar de forma trivial. Calcula-se que existam hoje no Brasil aproximadamente 38 milhões de analfabetos funcionais.

Quais são os desafios e reflexões que essa informação traz ao corpo docente de nossas igrejas? Será que muito da nossa insatisfação com a qualidade do ensino dos membros da igreja advém de uma deficiência cognitiva programada dos tais? Você já pensou que é possível que eles não necessariamente não querem aprender, mas simplesmente não conseguem absorver o conhecimento?

O nosso desafio é mais amplo. Pensar apenas teologicamente pode acabar sendo um eterno exercício de “enxugar gelo”. Talvez nossa influência educacional em nossos membros e alunos deva abarcar outras áreas do conhecimento, a fim de que possam se erguer do analfabetismo funcional, em direção a uma mente treinada e capaz de internalizar os princípios bíblicos de forma consistente. Como podemos fazer isso? Eu poderia jurar a você, leitor, que se tivesse uma resposta pronta e mágica, eu compartilharia nesse exato momento. Mas um problema estrutural como o da educação brasileira não se resolve de um dia para o outro. O que não significa que não podemos fazer nada.

Como bons herdeiros da Reforma que somos, acreditamos que o Evangelho impacta toda a vida do ser humano; cremos que um cristão deve ter uma cosmovisão que permeie todos os aspectos de sua existência; cremos que a Educação Cristã não se restringe à transferência de informações bíblico-teológicas. Sendo assim, é papel do educador cristão colaborar para que nossos queridos membros e alunos possam progredir no conhecimento (ou mesmo conseguir obter conhecimento).

Por que não utilizamos a estrutura educacional de nossas igrejas (muitas vezes muito bem equipada) para proporcionar aulas de Língua Portuguesa e interpretação de texto? Por que não fazemos clubes de leitura dos clássicos da literatura nacional (ou mesmo teológica)? Onde estão os instrutores para incutir noções básicas de lógica, dialética, argumentação em geral?

Se o Estado é incompetente para tal, nós podemos fazer a nossa parte, e contribuir, por mais relativamente pequena que seja a contribuição, para que nossa gente tenha capacidade de compreender as verdades transformadoras das Escrituras. Sei de relatos de pessoas que foram sobrenaturalmente iluminadas com as verdades bíblicas, mesmo não tendo estudo; conheço outras analfabetas que possuem conhecimento invejável das Escrituras. Creio nisso, e entendo que são um “recado” de Deus para nos mostrar que Ele pode fazer qualquer coisa. Contudo, essas situações são pontuais, e não acontecem com todos. Há muitos perdidos cognitivamente na igreja.

Esse tipo de iniciativa pode ter consequências que não imaginamos. Com mais pessoas tendo um entendimento organizado e coerente das Escrituras, podemos ter mais mestres e líderes capacitados para o ensino das Escrituras. Crescendo a quantidade de pessoas que conseguem se expressar bem a respeito do Evangelho, nossos evangelistas serão mais bem-sucedidos em sua proclamação. A Igreja ganha quando investe em Educação.

Trago provocações, não soluções. O problema é complexo demais para ser resolvido por uma pessoa apenas. Mas tenho plena convicção de que nos bancos de nossas igrejas temos material humano suficiente para reverter essa situação (profissionais do magistério, mestres voluntários da igreja etc). Minha oração é que o Senhor desperte nossas lideranças educacionais para o grave problema de analfabetismo funcional em nossos arraiais, e que façamos real diferença na vida de nossos irmãos, ajudando-os a alçar voos mais altos na compreensão e entendimento do texto bíblico.

1) Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1ez-6jrlrRRUm9JJ3MkwxEUffltjCTEI6/view; acesso em 04/04/2019.

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