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Luz e Fogo | Por John McAlister

Martyn Lloyd-Jones, um dos grandes defensores da fé evangélica e reformada no século passado, nasceu no País de Gales. Quando ainda jovem, ele converteu-se ao Evangelho de Cristo por meio da pregação de uma igreja metodista-calvinista em seu país de origem. Porém, o termo “metodista-calvinista” em sua época fazia tanto sentido quanto o termo “pentecostal-reformado” em nosso tempo. Por quê?

         Para os que conhecem um pouco da história do Protestantismo, a ala mais conhecida do movimento metodista foi a dos irmãos John e Charles Wesley, oriundos da Inglaterra no século 18, de convicção reconhecidamente arminiana – aquela que enfatiza o sinergismo, ou a colaboração mútua entre a graça de Deus e o esforço humano na obra da salvação. À luz desse legado, portanto, “metodismo-calvinista” seria uma contradição de termos, visto que a convicção calvinista enfatiza o monergismo, ou a intervenção soberana de Deus na salvação do ser humano, independente do seu esforço ou mérito.

Porém, no País de Gales, uma outra corrente do movimento metodista, de convicção calvinista, tomou forma simultaneamente na época dos Wesleys, liderada por homens como George Whitefield, Daniel Rowland, Howell Harris e William Williams. Embora ambas as correntes – tanto a galesa como a inglesa – enfatizassem a necessidade da experiência de regeneração espiritual, de segurança da salvação em Cristo, da prática de uma piedade condizente com a ação poderosa e transformadora do Espírito Santo, da evangelização abundante e do clamor por avivamento, elas divergiam justamente sobre a colaboração ou não entre Deus e o ser humano nesta corrente de renovação espiritual.

         Ao refletir sobre as raízes e os rumos do movimento metodista, do qual ele foi herdeiro, Lloyd-Jones concluiu não apenas que o “metodismo-calvinista” era historicamente defensável, como biblicamente e teologicamente superior à corrente “metodista-arminiana”.[1]A razão disso para Lloyd-Jones era simples: quando o pensamento metodista perde o foco central da glória soberana de Deus, típico do pensamento calvinista, ele perde o foco de todo o resto. Em outras palavras, quando a noção da glória soberana de Deus se vai, junto com ela vão a noção da depravação total do ser humano pecador, a necessidade e suficiência absoluta da graça de Deus em Cristo Jesus para redimir o pecador, bem como a urgência da intervenção soberana do Espírito Santo para produzir nova vida espiritual. Quando divorciado das suas raízes calvinistas, portanto, o metodismo descamba, lenta e progressivamente, para um espiritualismo e misticismo centrados na capacidade do ser humano de se renovar espiritualmente.

         Na avaliação de Martyn Lloyd-Jones, portanto, o calvinismo era a salvação do metodismo. Porém, a recíproca também é verdadeira. Ainda segundo Lloyd-Jones, a paixão e o vigor do metodismo são a salvação do calvinismo. Sem tal paixão e sem essa busca incessante pela glória de Deus e pelo poder do Espírito Santo, o calvinismo tende a transformar-se apenas em intelectualismo e academicismo. Portanto, concluiu Lloyd-Jones, se o “metodismo-calvinista” era o melhor tipo de metodismo, o “calvinismo-metodista” era o melhor tipo de calvinismo. Afinal, não bastava apenas conhecer e falar a respeito da glória soberana de Deus sem encantar-se por isso, alegrar-se com a oferta soberana da graça em Cristo Jesus e buscar preencher-se mais e mais da presença sobrenatural do Espírito Santo!

         Onde queremos chegar com tudo isso? Bem, de forma semelhante à conclusão de Lloyd-Jones acerca das suas raízes metodistas-calvinistas, cremos que algo parecido pode e deve ser dito sobre a tradição reformada e a espiritualidade pentecostal em nosso tempo. Especificamente, se a teologia reformada e calvinista não for aquecida pelo fogo da devoção pentecostal, ela naturalmente pende para um intelectualismo e um academicismo frio, desalmado e complacente. Por outro lado, se a espiritualidade pentecostal não for iluminada pela teologia reformada e calvinista, ela naturalmente pende para uma espiritualidade mística e esotérica. Tragicamente, é possível observar ambos os fenômenos em nosso tempo deste divórcio desnecessário entre “a luz” da teologia reformada e “o fogo” da espiritualidade pentecostal. Porém, como já apontamos, a opção “pentecostal-reformada” ou “reformada-pentecostal” surge como a combinação ideal entre o melhor de cada tradição. Precisamos urgentemente de ambos, pela graça de Deus e para a sua glória somente: luz na mente e fogo no coração!

[1]Para estes e os demais pontos da análise de Lloyd-Jones acerca do movimento metodista-calvinista, confira o seu ensaio “William Williams & Welsh Calvinist Methodism”, apresentado pela primeira vez em 1968, e disponível em: http://bsrich.tripod.com/calvinistic/welshcalmeth.html.

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