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A Igreja Anabolizada | Por John McAlister

Nos meus tempos de colégio, eu tinha um colega de turma bastante ativo, atlético e saudável, porém bastante franzino, de porte magro e esguio. Um belo dia, ao retornarmos das férias escolares de verão, ninguém reconhecia esse meu colega. Em uma questão de semanas, ele havia se transformado de um típico adolescente a um monstro de massa muscular. Embora jamais tivesse confessado, a suspeita de todos era a mesma: meu colega havia se anabolizado (ou “tomado bomba”, como diziam na época).

         Todos sabem distinguir o crescimento lento e gradual de um atleta dedicado e disciplinado de um crescimento exponencial e repentino de um atleta entorpecido. Para alcançar resultados maiores e mais expressivos em menor tempo, é necessário contornar certos obstáculos e driblar o curso normal da natureza. Porém, como já é sabido e documentado, o uso de substâncias anabolizantes, apesar de entregar os resultados desejados em um tempo reduzido, sempre traz consigo efeitos colaterais indesejados, alguns inclusive bastante nocivos à saúde e até permanentes.

         O crescimento da igreja é algo desejável e até saudável. Todo organismo saudável, bem alimentado e cuidado, produz crescimento. Não deveria ser diferente com a igreja, desde que entendamos o processo pelo qual Deus faz o seu povo crescer na terra: a proclamação fiel da Palavra, a vida de devoção e oração, além da vida comunitária amorosa, santa e sacrificial (cf. At 2.42-47). Em sua soberania, Deus pode fazer o seu povo crescer grandemente em pouco tempo, como foi no início da igreja apostólica. Mas, à luz da história, o Senhor costumeiramente ordena tal crescimento de forma lenta, gradual e orgânica, sempre na dependência do Espírito Santo.

         Contudo, em uma época como a nossa tão obcecada com números, resultados imediatos e sucesso repentino, o atrativo dos anabolizantes ministeriais tem cativado a muitos dentro da igreja. Ao invés de confiar nos instrumentos bíblicos e históricos para fazer a igreja crescer com saúde e vigor, muitos tem lançado mão de entorpecentes espirituais que promovem o rápido crescimento de uma congregação: uma pregação terapêutica e motivacional; cultos performáticos, embalados por celebridades evangélicas e melodias ultra-sentimentais; modelos de crescimento de igreja que enaltecem a quantidade de pessoas engajadas acima da qualidade do discipulado cristão, dentre várias outras técnicas de gestão e administração de uma congregação.

         Os resultados de toda essa experimentação eclesiástica podem ser observados por toda parte. Com recursos suficientes, os programas certos e as técnicas corretas de comunicação e mobilização de massas, planta-se uma “igreja” e, em pouco tempo, o lugar está abarrotado de gente. Porém, tal qual o atleta anabolizado, tal crescimento sempre vem a um custo.

         Quais seriam os efeitos colaterais de uma “igreja anabolizada”? Dentre tantos itens que poderíamos citar, destacamos os seguintes: o culto cristão, antes centrado na adoração da glória soberana de Deus, agora concentra-se nas vontades do espectador religioso de entretenimento evangélico; a pregação cristã, antes centrada na centralidade e na suficiência de Cristo Jesus para expiar a culpa do pecador arrependido, agora gira em torno da culpa e da baixa autoestima do ouvinte, carente de afirmação e aceitação pessoal; a comunhão cristã, antes centrada na operação santa, poderosa e transformadora do Espírito Santo, agora transformou-se em um mero programa espiritual talhado para atender as necessidades sentidas e urgentes do consumidor (criança, jovem, universitário, casado, solteiro, idoso, empresário, artista, atleta… e a lista continua); enfim, a jornada cristã, antes vista como uma peregrinação custosa e disciplinada rumo à glória do porvir, foi redefinida como um belo passeio em um parque encantado com as belezas passageiras desta vida e deste mundo.

         Os anabolizantes ministeriais estão disponíveis em toda parte e seus resultados imediatos são bastante atraentes aos olhos desta geração. Porém, o perigo no qual eles incorrem é tremendo. Para tanto, sacrifica-se a transcendência da glória de Deus, o significado central da mensagem da Cruz, a comunhão ungida do Espírito Santo e a perseverança da carreira cristã no altar do comodismo, do egoísmo e do narcisismo autoindulgente que deseja a sua recompensa agora, neste mundo, e não no porvir. Contudo, se a igreja anabolizada deseja a sua recompensa aqui e agora, e não lá e então na glória, essa é a única recompensa que ela terá. E esse, certamente, é o maior risco que esse tipo de igreja corre em nosso tempo.

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