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Pastel de vento | Por Gabriel Carvalho

Nunca fui muito fã de pastel. Não que achasse ruim, mas tinha outras preferências gastronômicas. Só que, certo dia, sendo uma criança serelepe e esfomeada, me deparo com um baita exemplar que representaria muito bem a classe dos pasteis. Bem dourado, aparência fresca, casca torradinha, e, na minha visão, fartamente recheado de queijo. Nossos caminhos se encontraram naquele momento, e tive o privilégio de ser o possuidor de tamanha honra: degustar aquele primoroso pastel.
Qual não foi minha surpresa, quando dou a primeira mordida… e quase não tem recheio! Que propaganda enganosa, aquele pastel que fazia salivar pela sua aparência… era um pastel de vento! Como eu pude ser enganado assim? Aquilo não iria matar a minha fome, e desde então me senti frustrado e desesperançoso com os demais pastéis. Toda vez que chego diante de um, lembro-me daquele fatídico dia, e a dúvida sempre paira no ar: será que este também não é um pastel de vento?
Ora, o leitor pode estar pensando que o autor do texto é um daqueles pregadores que falam uma sequência de coisas desconexas e aleatórias entre si e chamam isso de pregação, mas não: o que quero dizer é que há uma relação entre o ensino na igreja e o pastel de vento. Como um professor pode se tornar um “pastel de vento”? Basta ele ser um “cabeça de vento”? Isso é um grande início, mas não é tudo.
Para começar, devo comparar minha expectativa com o pastel com a expectativa que os alunos têm com seus professores. Muitos destes esbanjam paredes cheias de diplomas, experiência invejável, oratória impecável, carisma indefectível, ou seja, geram nos alunos a possibilidade de ter um momento fantástico de ensino e… no fim, acabam frustrados com mais um professor-pastel… de vento.
O que faz com que um professor não tenha “recheio” (substância, conteúdo)? Quando falamos no contexto da igreja, certamente nos referimos àqueles mestres que são avessos à Teologia. Mas será que ainda hoje existe gente que deseja lecionar a Palavra de Deus sem ter contato com a Teologia? É possível fugir do pensar teológico? A “isenção” teológica é uma ilusão, pois essa própria atitude se torna, em última instância, uma decisão teológica. Não há como fugirmos da Teologia. A verdadeira questão não é se vamos fazer Teologia ou não em sala de aula, mas se vamos fazer boa ou má Teologia em sala. E quando o mestre se ressente do labor teológico, ele não passa de um vigoroso e aprazível… pastel de vento.
A essência do ser humano é questionadora, porém vejo que as gerações atuais têm exacerbado o desejo e intenção de se aprofundarem em questões de forma fundamentada e razoável. Não funciona mais o “é isso porque eu disse”, “obedeça porque estou mandando”. Muitos na igreja precisam e demandam respostas, e a Teologia nos ajuda nessa caminhada de estruturar as respostas básicas do ser humano a partir das Escrituras.
Retornando à minha experiência, relatei que meu primeiro contato com um pastel de vento me fez um certo tipo de “cético” quanto aos demais pastéis. A dúvida sempre pairava, se aquele outro não seria igual ao primeiro, que marcou aquele momento da minha vida. E é exatamente isso o que professores-pastéis fazem com seus alunos. Nossos aprendizes querem aprender as coisas de Deus, e quando não entregamos isso, ou entregamos de forma rasa e inconsistente, eles percebem, comentam entre si, e isso acaba desanimando muitos na jornada de conhecimento da Palavra de Deus, trazendo até mesmo dúvidas quanto a outros mestres da Palavra.
Por outro lado, um professor altamente desenvolvido tanto na área didática, quanto na área das relações humanas, e, na igreja, nos contextos doutrinários e teológicos, estará certamente mais preparado para influenciar, impactar e colaborar para que seus alunos cresçam no conhecimento da Bíblia e de Deus, e se tornem ávidos por outras aulas, outros professores, quem sabe no futuro eles mesmos assumirem esse glorioso posto de ensino das Sagradas Escrituras.
Qual tem sido sua relação com a Teologia, caro professor? Ela tem sido sua aliada? Sua inimiga? Ou você tem sido indiferente a ela? Lembre-se que, assim como o recheio pode fazer com que o pastel seja reconhecido ou rejeitado, seu conhecimento das coisas de Deus e da Bíblia pode fazer o mesmo com sua função. Esteja sempre preparado para “alimentar” seus alunos da melhor forma! Deus o abençoe.

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