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Orando para a glória de Deus – Parte 1: conhecimento de Deus

Por Marcelo Maia 

Aquela noite começou de modo estranho. O Senhor enrolou um avental na cintura e, como um serviçal, lavou os pés dos discípulos. O que se seguiu não foi menos surpreendente: um discurso de despedida. Ele iria preparar um lugar e enviaria um Conselheiro, falou sobre videira e ramos e o ódio do mundo e que Ele voltaria para o Pai.

Imagine-se no lugar daqueles 12 homens (vamos considerar que Judas também ficou atônito). Aquelas palavras certamente deixaram dúvidas e tornaram o ar mais pesado naquele cenáculo.

E para terminar… uma oração.

O trecho do cap. 17 do Evangelho de João ficou conhecido como a oração sacerdotal. Todavia, gostaria de propor outro título, ainda reconhecendo o tom intercessório (sacerdotal) das palavras de Jesus. Esta é uma oração que clama pela glória de Deus. Como podemos saber disso? “Glória”, “glorifica”, “glorificar” são palavras-chave nesta oração (não só aqui, mas em todo o quarto evangelho). Nos primeiros cinco versos, elas aparecem cinco vezes. Jesus ora tendo a glória do Pai diante de si e seu alvo principal é que o Pai seja glorificado. Como as palavras de Jesus expressam o desejo de que seu Pai receba a glória? É o que vamos responder em seis pequenos artigos, correspondentes a seis petições que enxergo no texto. A primeira parte pode ser resumida da seguinte maneira:

Como Jesus glorificou o Pai durante seu ministério terreno? Tornando-o conhecido por meio de palavras e ações que trouxeram glória ao Pai (v. 4). De fato, nessa oração, ele define a vida eterna em função do conhecimento de Deus e do Messias. Isso me leva a pensar que Deus deseja ser cada vez mais conhecido por aqueles a quem Ele conheceu antes do tempo. Vemos isso em Jeremias 29.13,14a:

Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração. Eu me deixarei ser encontrado por vocês, declara o SENHOR…

Ou ainda em Oseias 6.3:

Conheçamos o SENHOR; esforcemo-nos por conhecê-lo. Tão certo como nasce o sol, ele aparecerá; virá para nós como as chuvas de inverno, como as chuvas de primavera que regam a terra.

As orações de Paulo em Efésios, Filipenses e Colossenses contém um pedido em comum – o conhecimento de Deus. Mas, em que consiste o conhecimento de Deus? Quero fazer apenas algumas considerações sobre o assunto e chegar a uma conclusão, embora muito mais possa ser dito a respeito.

Sabemos que Deus pode ser conhecido por meio de sua revelação nas Escrituras. Porém, Jesus falou algo intrigante aos religiosos de sua época:

Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês tem  a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês  não querem vir a mim para terem vida. (Jo 5.39)

Como assim “pensam” que nelas há vida eterna? Porventura não havia vida na Escritura, visto que elas mesmas tornam o Deus da vida conhecido? Não estariam aqueles judeus com razão pensando isso? Se Jesus os censurou, bom motivo houve. O estudo de coisas sobre Deus não nos leva ao conhecimento de Deus. Os judeus estudavam cuidadosamente, mas com a motivação e percepção equivocadas. Estudavam para que esse ato fosse computado como mérito e estudavam sem enxergar Cristo. As Escrituras não transmitiam a vida eterna, porque a vida eterna estava ali, diante de seus olhos, e eles não compreenderam. Preocupar-se em adquirir conhecimento teológico como um fim em si mesmo é o caminho direto para o autoengano. Sobre isso, D. A. Carson afirmou:

Nada é tão enganoso como uma mente evangélica erudita que pensa estar próxima de Deus por causa de sua erudição e não por causa de Jesus.

Mas cuidado! É enganoso pensar que agora podemos mover todo o pêndulo em direção a “experiência” para conhecermos a Deus. Assim como nossa mente foi contaminada pelo pecado, nossas emoções também foram. Outra observação tem como ponto de partida o texto de Oseias 6.6:

Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus em vez de holocaustos.

Holocaustos eram necessários? Sim. Por quê? Deus os ordenou por meio da Lei. O que era, em síntese, a Lei? Revelação de Deus para seu povo. Quem praticava holocaustos conhecia a Lei e a Lei revelava Deus. Assim, em lógica irrefutável, poderíamos afirmar que quem oferecia holocaustos conhecia a Deus. Errado! Isaías escreve:

O Senhor diz: “Esse povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. A adoração que me prestam é feita só de regras ensinadas por homens”. (29.13)

O que a história de Israel nos mostra é que é possível cumprirmos com os rituais e exigências da Lei sem ter conhecimento verdadeiro de Deus. É possível andar nos corredores do palácio e nunca ver o Rei. Davi alerta, no Salmo 51, que os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado. Contudo, ao final do salmo, ele diz que Deus igualmente se agradaria dos sacrifícios sinceros, das ofertas queimadas e dos holocaustos e novilhos serão oferecidos sobre teu altar. Quem conhecia a Deus oferecia os holocaustos requeridos na Lei, acompanhados de um coração quebrantado, contrito.

Bom, demos esse passeio pela Bíblia para afirmar de modo simples e direto que o verdadeiro conhecimento que glorifica a Deus envolve mente e coração. A respeito disso, John Piper, com usual clareza, disse:

O pensar correto sobre Deus existe para prover sentimentos corretos para com Deus. A lógica existe em benefício do amor. O raciocínio existe em benefício do regozijo. A doutrina existe em benefício do deleite. A meditação sobre Deus existe  em benefício das afeições para com Deus. A mente existe para o propósito de servir o coração.

Que o sublime conhecimento de Deus possa ser buscado por todos nós!

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