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Não Existe Ministério de Ensino! | por Gabriel Carvalho

Seria eu muito cruel se te dissesse que o ministério que você faz parte não existe? Qual seria a sua reação ao ouvir tal afirmação? Para esclarecer o objetivo desse artigo, precisamos tratar sobre esse termo – “ministério de Ensino”. O que caracteriza um ministério? Como ele se aplica na igreja? E qual é a relevância e a abrangência do ensino no contexto da igreja? Essas são questões que precisam ser respondidas.

Para entender o conceito bíblico de alguma palavra, precisamos ir às Escrituras. Parece óbvio, mas nem sempre é o caminho trilhado. No Novo Testamento, a palavra “ministério” aparece aproximadamente vinte vezes1, quase em sua totalidade como a tradução da palavra grega diakonia2. Essa palavra tem um forte significado de serviço espontâneo e dedicado.

O grande problema é que nós temos institucionalizado o significado de ministério, reduzindo-o a uma estrutura de grupos e departamentos que agem setorialmente. Dessa forma, compartimentalizamos o serviço no contexto da igreja. O pragmatismo dessa decisão traz visíveis consequências positivas, mas por vezes, é possível que se perca a visão do que significa, de fato, o ministério.

Já a palavra “ensino” aparece aproximadamente trinta vezes no Novo Testamento3, sendo a maioria de suas referências a tradução das palavras didache e didaskalia4. A primeira palavra denota uma ideia de doutrina confiável, enquanto a segunda aponta para o sentido de instrução correta de princípios.

Sendo assim, o conceito de ministério de ensino seria uma espécie de serviço de instrução na doutrina. Ora, todos os departamentos da igreja devem fazer isso! É nesse sentido que o título deste artigo é posto. Com o tempo, nos acostumamos a pensar no ensino como uma iniciativa setorial de um departamento específico da igreja. Ou seja, ensino na igreja virou coisa para “os professores da Escola Dominical”. Muitos mestres em nossas igrejas acabam por absorver essa ideia, e acabam fazendo seus planejamentos educacionais muito voltados para suas próprias classes estabelecidas, sem se dar conta de que algumas vezes não estão alcançando grupos importantes da igreja.

Todo “ministério” (departamento, grupo) na igreja é – ou deveria ser – um ministério de ensino. Os jovens e adolescentes, a visita aos lares, a intercessão, as classes infantis, o grupo de casais, de homens, de mulheres. Tudo é ensino porque a ordem de Jesus na Grande Comissão (Mt 28.18-20) envolve pregar o Evangelho a toda criatura, batizando-os e ensinando-os a guardar tudo o que ele ensinou. A Grande Comissão não se restringe ao grupo de professores da Escola Dominical!

Quais são as implicações práticas dessa reflexão? Em primeiro lugar, o líder de Ensino na igreja, junto com seu corpo de professores, deve ampliar seu pensamento: continuar fazendo o bom trabalho nas classes estabelecidas, porém pensar em contribuir em novas iniciativas: como seria proveitoso que nossos mestres compartilhassem seu conhecimento, além da sala de aula, em um grupo de estudos para os homens; ou num discipulado de casais; ou mesmo compartilhando experiências da caminhada cristã com os jovens e adolescentes.

Em segundo lugar, os líderes dos demais departamentos da igreja precisam entender que, definitivamente, o “ministério” deles também é ensinar: os jovens não precisam ser entretidos, mas ensinados; passeios são ótimos para a terceira idade, mas os idosos precisam aprender da Palavra; a liderança de casais pode investir tempo ensinando pela Bíblia a prevenir problemas no casamento em vez de se desgastar aconselhando casais pré-divorciados; o líder da música deve ter a noção de que o seu repertório está repleto de ensino (para o bem, ou para o mal).

Em terceiro lugar, os pastores e a liderança da igreja precisam compreender que o ensino na igreja precisa ser avaliado de forma global e unificada: não é possível que uma igreja permaneça saudável quando os diversos departamentos estão ensinando coisas diferentes. A proposta é que haja um planejamento amplo, que unifique a temática e a intenção pastoral exposta nas pregações, que se alinhe com os estudos da Escola Dominical, com o tema do Retiro dos jovens, das reuniões de oração, dos encontros de casais, das músicas cantadas, das lições dadas às crianças, e assim por diante.

Essa mudança de mentalidade não é fácil de ser internalizada, e muito menos de ser posta em prática. Um pensamento de anos normalmente não se desfaz em minutos. É necessário perseverança e ação, para que possamos entender nosso real papel como servos de Deus, no qual todos precisam estar envolvidos na obediência às palavras de Jesus – “ensinem a guardar tudo o que tenho ensinado”. Deus o abençoe!

1) Estatística aplicada por meio de consulta realizada na tradução “Nova Versão Internacional”.

2) A palavra diakonia está presente em At 1.17, 25 / At 6.2,4 / At 20.24 / At 21.19 / Rm 11.13 / 1 Co 3.5 / 1 Co 12.5 / 2 Co 3.3, 7-9 / 2 Co 4.1 / 2 Co 5.18 / 2 Co 6.3 / Ef 4.12 / Cl 4.17 / 1 Tm 1.12 / 2 Tm 4.5,11. Duas passagens em Hebreus (Hb 8.6 / Hb 9.6) traduzidas como “ministério” apontam para as palavras leitourgia e latreia.

3) Estatística aplicada por meio de consulta realizada na tradução “Nova Versão Internacional”.

4) A palavra didache está presente essencialmente nos escritos não-paulinos (Evangelhos e epístolas gerais): Mt 7.28 / Mt 16.12 / Mt 22.33 / Mc 1.22,27 / Mc 4.2 / Mc 11.18 / Lc 4.32 / Jo 7.16,17 / At 2.42 / At 13.12 / At 17.19 / Rm 6.17 / Rm 16.17 / Hb 13.8. A palavra didaskalia ocorre com maior frequência nas cartas de Paulo: 1 Co 4.17 / Cl 2.22 / 1 Tm 4.13 / 1 Tm 5.17 / 1 Tm 6.1,3 / 2 Tm 3.10,16 / Tt 2.7,10. Há ainda poucas referências à tradução da palavra logos como ensino.

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