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Por que não abandonei o pentecostalismo | Por Walter McAlister

Tenho visto por aí pessoas que afirmam terem abandonado o pentecostalismo. Citam os absurdos praticados, assim como muitas leituras sofismadas, ou no mínimo equivocadas das Escrituras Sagradas. Não há dúvida de que o mundo pentecostal está repleto dessas coisas. Basta clicar a palavra “pentecostal” na busca do YouTube e verá um verdadeiro desfile de coisas constrangedoras praticadas por pessoas obviamente despreparadas para liderar o rebanho de Deus, ou de serem convidadas para dar uma palavra sequer.

Como mostro no meu livro O Pentecostal Reformado, o que se entende por pentecostalismo é comumente caracterizado pelos excessos ou por doutrinas que nunca foram unanimidade no movimento. Desde o princípio houve grandes diferenças entre as várias vertentes do movimento, não somente no que diz respeito às doutrinas consideradas fundamentais, hoje em dia, como também ao governo de igreja (várias igrejas adotaram governo episcopal já no início do século 20, no EUA, na Índia, e em partes da Europa), usos e costumes, ordenação feminina e até segregação racial (imaginem).

Historicamente é impossível se dizer ser um pentecostal ou um carismático sem uma clara e até detalhada qualificação. Assim como os diplomatas dizem que o Brasil não é um país para amadores, ao vislumbrar o pentecostalismo a regra também se aplica. Saber do que se trata não é fácil e precisa de muito alcance teológico, histórico e social. Graças a Deus há obras disponíveis que mostram o enorme leque que o pentecostalismo representa hoje e ao longo dos últimos 120 anos.

Mas para que este post não seja comprido demais, permita que eu dê umas poucas razões pelas quais me recuso a “deixar o pentecostalismo”.

Historicamente

Sou filho, neto e bisneto de pentecostais. Grande parte do que sou e do que sei se deve a uma dívida impagável aos meus pais na fé. Mas não é só a minha pré-história que me define. A minha história pessoal também o faz. Fui ordenado no pentecostalismo. Tenho fortes e marcantes experiências pentecostais que não estou disposto a negar. Oro em línguas estranhas, já orei por enfermos que foram curados, tenho experiências inegáveis de profecias cumpridas em minha vida e de outros, já expulsei demônios pelo poder do nome de Jesus e já senti a unção extraordinária do Espírito Santo em dados momentos de ministério e de devoção pessoal. Todos esses fatos são características sadias de um pentecostalismo formado por, de modo bem abrangente, mais de 630 milhões de pessoas ao redor do mundo.

Biblicamente

Não há necessidade de forçar a leitura das Escrituras para abalizar essas muitas experiências, tampouco os elementos do que chamo o “imaginário social” pentecostal. Isso é claramente explicado no meu livro. Nem tampouco há fundamento para afirmar que dons cessaram após a geração apostólica. Cessacionismo é uma postura extra bíblica e depende de argumentar a partir do silêncio da Bíblia. Todo bom teólogo sabe que argumentar do silêncio é um erro fundamental, embora muitos bons teólogos o fazem.

Missionalmente

Finalmente, creio que a nossa casa não deve ser abandonada. Devemos arrumá-la. Quando se dá um banho num neném, não se deve jogá-lo fora com a água suja. Temos que repensar muita coisa. Mas, não precisamos negar o que seja bom. Quanto aos abusos, às práticas excêntricas, crenças espiritualistas e crendices claramente não-bíblicas, vamos denunciá-las devidamente e nos contextos apropriados. Não precisamos alardear a nossa opinião sobre tudo de esquisito que acontece nos arraiais ditos pentecostais. Elas já se denunciam por conta própria. Só pessoas desinformadas e malformadas na fé caem nessas práticas; que nos leva à questão principal. Ao invés de denunciar, devemos discipular na sã doutrina e prática de fé cristã que não precisa ser reinventada. Basta ser resgatada. Para este fim continuarei a ser um pentecostal, aliás, um pentecostal reformado.

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