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Entendendo a Bíblia, pela própria Bíblia

Philip Graham Ryken

A exposição bem-sucedida da Bíblia depende, em parte, da sua perspicuidade. Como alguém poderia explicar a Bíblia, ou entender as passagens bíblicas que estão sendo explicadas, a menos que as próprias Escrituras fossem suficientemente claras tanto para o pregador quanto para a congregação? Pregadores, professores e comentaristas bíblicos não são necessários para a compreensão do texto, mas eles podem aprofundá-lo — não nos dizendo algo diferente do que está escrito, mas nos ajudando a ver o que está realmente ali.

A doutrina da clareza das Escrituras também não nega que algumas partes da Bíblia são mais difíceis de entender do que outras. Crer que a Bíblia é clara em sua mensagem salvadora central e sua aplicação à vida não significa que todas as suas partes são igualmente acessíveis, como se nunca fôssemos ter qualquer dificuldade em compreender algumas passagens. Até mesmo o apóstolo Pedro teve dificuldade de entender algumas partes da Bíblia. Ele diz isso no fim de sua segunda epístola, ao comentar sobre as cartas de Paulo, seu companheiro apóstolo: “Suas cartas contêm algumas coisas difíceis de entender”, admitiu Pedro, “as quais os ignorantes e instáveis torcem, como também o fazem com as demais Escrituras” (2 Pe 3.16).

Esse texto, às vezes, é usado para atacar a perspicuidade da Bíblia. Mas, na verdade, está claro que Pedro acreditava nessa doutrina tanto quanto qualquer pessoa. Por mais que amasse as cartas de Paulo, Pedro não estava disposto a fingir que sua compreensão é sempre fácil. Porém, ao mesmo tempo ele diz aos seus leitores para as estudarem e, assim, evitarem os erros dos homens sem lei. As cartas de Paulo “não são tão difíceis a ponto de serem postas de lado”. Afinal, Pedro apenas “lhes fez um apelo em apoio ao que ele vem dizendo, o que supostamente indica que ele entendeu o que Paulo estava dizendo em algum ponto”. De fato, todo o seu argumento “pressupõe que o significado correto das palavras de Paulo pode ser identificado e contrastado com o que essas pessoas estão sugerindo. Além disso, Pedro parece presumir que os destinatários de sua carta têm condições de fazer essa identificação e compreender esse contraste. De que outra maneira eles poderiam evitar o erro?”.

Na compreensão das partes difíceis das Escrituras é sábio aplicar o princípio importante de deixar a Bíblia interpretar a Bíblia. Como disse Martinho Lutero: “A Bíblia é sua própria intérprete.” Quando seguimos esse princípio, nossa interpretação das Escrituras é regulada pelas próprias Escrituras, não por algo externo a elas. Toda vez que lemos algo difícil de entender na Bíblia devemos buscar o que é dito em outra passagem para obter maior clareza, pois, de modo geral, haverá um texto bíblico que explique de maneira mais simples aquilo que nos parece difícil de entender. Eis como Agostinho explicou esse princípio: “O Espírito Santo planejou as Sagradas Escrituras de modo generoso e vantajoso, de tal maneira que nas passagens mais fáceis Ele alivia a nossa fome, e nas mais obscuras Ele afasta a nossa soberba. Praticamente nada se encontra nesses textos obscuros que não se descubra estar dito muito claramente em outra passagem.”

Há algo mais que a perspicuidade das Escrituras não nega, que é o fato de alguns leitores entenderem melhor a Bíblia do que outros. Ela não é igualmente clara em todas as passagens e não é igualmente clara para todas as pessoas. Como disse William Whitaker certa vez: “Não há na Bíblia algo tão simples que alguns homens não tenham duvidado”. Surgem distintas interpretações das Escrituras em parte porque todos nós temos diferentes dons e capacidades. E também porque, a despeito de toda a sua simplicidade, a Bíblia tem um significado muito profundo. Gregório, o Grande, disse que, assim como a Bíblia…

exercita o sábio por meio de mistérios, assim também, geralmente, reaviva o simples por intermédio do que se encontra na superfície. Ela mantém em aberto aquilo pelo que os pequenos podem ser nutridos, e mantém oculto aquilo pelo que os de intelecto elevado podem ficar maravilhados. Ela é uma espécie de rio, se assim posso compará-la, que é raso e profundo, no qual tanto o cordeiro pisa o fundo quanto o elefante é capaz de nadar.

Há outra razão, mais obscura, por que algumas pessoas não entendem a Bíblia como as outras. Não é só porque algumas são cordeiros, mas também porque algumas pessoas são bodes. Elas não estão entre as ovelhas que Jesus diz que sempre ouvirão a sua voz (Jo 10.27). Não creem no Deus da Bíblia ou têm um relacionamento de salvação com Jesus Cristo. Como resultado, elas não têm uma compreensão clara da Bíblia, por mais clara que ela seja. Elas interpretam o sentido das Escrituras equivocadamente, compreendem incorretamente o Evangelho da salvação e aplicam mal a Lei de Deus. Depois, atacam a Bíblia por seus supostos erros. Porém o problema está nelas e não nas próprias Escrituras, cuja verdade só pode ser compreendida por meio da fé.

William Whitaker usou uma analogia simples para explicar por que a incapacidade de algumas pessoas de entender a Bíblia não nega sua clareza: “Uma lâmpada tem a luz em si mesma, quer os homens olhem para a luz ou não: assim também a Bíblia é clara e perspícua”, disse Whitaker, “quer os homens sejam iluminados por ela, quer não recebam dela qualquer luz.”

A menos que acreditemos — e até que o façamos — há em nós uma escuridão que nos impede de ver a luz. Como diz o evangelho de João: “… a luz veio ao mundo, mas os homens amaram as trevas, e não a luz” (Jo 3.19). Essa escuridão espiritual é o que impede as pessoas de compreenderem o significado claro das Escrituras, que só pode ser recebido por fé. Em suma, a própria Bíblia é clara: é a nossa própria escuridão que precisa ser iluminada. “Se o nosso evangelho está encoberto”, disse o apóstolo Paulo, “para os que estão perecendo é que está encoberto” (2 Co 4.3). Somente aqueles que estão vivos em Cristo são capazes de ver e entender o que dizem as Escrituras.

A capacidade do crente de ver a luz da Bíblia é um dom da terceira pessoa da Trindade. Deus não nos deu a sua Palavra sem também nos dar o seu Espírito, que nos guia a toda a verdade (Jo 16.13). Martinho Lutero disse que há uma clareza interna — a clareza da Palavra como nós a percebemos — que só pode vir da iluminação do Espírito “Ninguém percebe uma letra do conteúdo das Escrituras, a menos que tenha o Espírito de Deus.”

Trecho do livro “Firme Fundamento: a inerrante Palavra de Deus em mundo errante”. Além de Philip Ryken, a obra apresenta sermões de outros pregadores reformados sobre a inerrância bíblica. Saiba mais.

 

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