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A oração de fé

Existe a fé de que é a vontade do Senhor curar naquele exato momento. Falo aqui da certeza psicológica de que a cura é o que Deus fará, de fato, no momento exato. Isso é provavelmente mais do que Paulo tinha em mente quando falou sobre o dom da fé em 1 Coríntios 12.9. Também pode ser aquilo a que Tiago se referiu como “… a oração feita com fé” (Tg 5.15).

A oração de fé não é aquela que fazemos sempre que queremos. Ela é uma oração singular, imbuída divinamente de poder apenas nas ocasiões em que o propósito soberano de Deus é transmitir um dom de cura. Tiago teve o cuidado de colocar o artigo definido “a” antes de oração e fé (daí, “a oração feita com fé”). Alguém faz essa oração somente quando impelido pela convicção, moldada pelo Espírito, de que Deus tem a intenção de curar a pessoa por quem a oração está sendo feita. Isso é mais do que meramente crer que Deus é capaz de curar; parece ser a fé no fato de que Ele, nesse caso específico, não só está disposto a curar, mas também está disposto a curar naquele exato momento. Deus concede essa fé necessária para a cura de modo soberano, somente quando Ele quer. Quando Deus decide curar, Ele produz no coração das pessoas que estão orando a fé ou confiança de que a cura é precisamente a sua intenção. O tipo específico de fé a que Tiago se refere, em resposta à qual Deus cura, não é o tipo que possamos exercer segundo a nossa vontade. É o tipo de fé que exercitamos somente quando Deus quer.

Certo domingo, um casal veio falar comigo antes do culto e pediu que os presbíteros da nossa igreja ungissem seu filho recém-nascido e orassem por sua cura. Após o culto, nós nos reunimos na sala dos fundos e eu o ungi com óleo. Ele tinha apenas duas semanas de idade e tinha sido diagnosticado com uma doença grave no fígado que poderia exigir cirurgia imediata, talvez até mesmo um transplante, se algo não mudasse.

Quando oramos, algo muito incomum aconteceu. Ao impormos as mãos sobre aquela criança, vi-me repentinamente cheio de uma confiança avassaladora e inevitável de que ela seria curada. Foi algo totalmente inesperado. Não querendo ser presunçoso, tentei duvidar, mas não consegui. Orei com confiança, cheio de uma fé inabalável e inegável. Eu disse silenciosamente a Deus: Senhor, realmente Tu irás curá-lo. Embora a família tivesse saído da sala com incerteza, eu estava absolutamente certo de que Deus o curara. Na manhã seguinte, o médico concordou. O bebê estava totalmente curado e hoje é um jovem feliz e saudável. Se esse foi um exemplo do dom da fé operando em conjunto com um dom de cura, não há nenhuma razão para pensar que se eu tivesse orado por outro menino enfermo naquele dia, ele teria necessariamente sido curado. O fato de eu ter recebido um dom de cura nessa ocasião não garante que eu poderia orar com igual sucesso em outra ocasião.

Deixe-me fazer três comentários adicionais sobre essa passagem de Tiago 5. Primeiro, Tiago estabeleceu vários pontos-chave sobre o relacionamento entre doença e pecado no versículo 15. Ele escreveu: “A oração feita com fé curará o doente; o Senhor o levantará. E se [o doente] houver cometido pecados, ele será perdoado” (v. 15; grifo do autor). Tiago está em harmonia com Jesus (ver Jo 9.1-3) e Paulo (ver 2 Co 12.1-10) no tocante ao fato de que nem toda doença é resultado direto de pecado. Às vezes é (ver 1 Co 11.27-30; Mc 2.1-12), mas nem sempre. O “se” no versículo 15 não tem o objetivo de sugerir que a pessoa que está doente pode nunca ter pecado. O significado é que, se Deus a curar em resposta à oração, isso indica que qualquer pecado do enfermo que possa ter sido responsável por essa doença específica foi perdoado. Em outras palavras, se o pecado fosse responsável pela doença, o fato de Deus tê-lo curado fisicamente seria uma evidência de que Deus o perdoara espiritualmente.

Segundo, o pecado que Tiago tinha em mente pode ter sido o de amargura, ressentimento, inveja, raiva ou rancor em nossos relacionamentos uns com os outros, ou podemos conceber qualquer pecado que possamos ter cometido contra Deus. Por isso, Tiago nos aconselhou: “… confessem os seus pecados uns aos outros” (Tg 5.16). Provavelmente, ele tinha em mente confessar à pessoa contra quem você pecou ou confessar a outro crente as suas transgressões ou violações mais gerais das leis bíblicas. O que isso nos diz é que Deus decidiu atrelar a misericórdia que traz cura ao arrependimento do seu povo. Quando a ferida não é curada, isso pode ser resultado de teimosia e insensibilidade espiritual, muito mais do que porque “Deus não faz mais esse tipo de coisa”.

Finalmente, devemos observar cuidadosamente o exemplo de Elias (ver Tg 5.17,18). Os cessacionistas argumentam que os milagres bíblicos foram agrupados ou concentrados em apenas três períodos principais da História: os dias de Moisés e Josué, o tempo de Elias e Eliseu, e o tempo de Cristo e dos apóstolos. O ponto central desse argumento é que Elias e Eliseu, por exemplo, eram indivíduos especiais, extraordinários e únicos, que não podem servir como modelos para nós quando oramos.

Mas Tiago disse precisamente o contrário! O que é dito nos versículos 17 e 18 contraria o argumento de que Elias era singular de alguma maneira, ou que devido ao período em que viveu ele podia orar com sucesso milagroso, mas nós não. Tiago queria que seus leitores soubessem que Elias era exatamente como você e eu. Ele era um ser humano com fraquezas, medos, dúvidas, falhas — não menos do que nós. Em outras palavras, Tiago disse: “Não deixem alguém lhes dizer que Elias pertencia a uma categoria singular. Não era assim. Ele era exatamente igual a vocês. Vocês são exatamente iguais a ele. Portanto, orem como ele orou!”

Não se esqueça do contexto: Tiago recorreu ao exemplo de Elias para nos encorajar ao orarmos pelo enfermo! A questão é que devemos orar por cura milagrosa com a mesma fé e esperança de Elias ao orar pelo fim de uma seca de três anos.

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