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Uma igreja que não joga pelas regras | Por Walter McAlister

Já faz tempo que adotei a máxima que afirma que a igreja mais relevante ao mundo é, de fato, uma igreja irrelevante ao Reino de Deus. Como também, o inverso é igualmente verdadeiro: a igreja mais relevante ao Reino de Deus é irrelevante ao mundo. Isso quer dizer que na missão, discurso, liturgia e presença neste mundo a Igreja precisa procurar se definir, ou melhor, ser definida por parâmetros que contradizem os que norteiam as instituições deste mundo. Seu parâmetro é bíblico e não mundano.

Qualquer instituição que marca presença “na praça”, que tem um projeto de comunicação e que inspire adesão voluntária precisa seguir certos parâmetros para ser bem aceita e consequentemente bem sucedida. A praça pública é regida pelos valores atuais da cultura vigente. Nos séculos passados, as regras eram bem diferentes das que vigoram hoje. A presença pública de uma instituição tem que ser deferente aos valores tidos pela maioria para ser bem quista.

Então, quais são essas regras então? Em primeiro lugar há uma litania de valores que pautam a nossa sociedade: inclusão, tolerância, sustentabilidade, justiça social e igualitarismo. Concomitantemente, há um certo “tom” exigido de todos: charme, atraente, inofensivo, “light” etc. Esses valores regem como se faz política, como se educa, como se entretém, como interagir com pessoas nos muitos contextos sociais e ambientes cotidianos.

Uma grande parcela da Igreja tem se rendido a esses valores, tal qual tem feito ao longo dos últimos vinte séculos. Na tentativa de agregar, ela se contextualiza, e até um certo ponto não faz mal em fazê-lo… até um certo ponto. O “certo ponto” é o xis da questão. Mas nosso discurso, missão e mensagem precisa ser muito bem definido ou podemos acabar sendo absorvidos pela cultura e com isso sermos neutralizados. Uma igreja neutralizada é sal sem gosto.

A igreja que usa todas as formas do mundo e lapida sua mensagem para acomodar as sensibilidades mundanas acaba se tornando mundana, pelo menos em parte. “Em parte” faz mal? Claro que sim. A igreja precisa ser “sem mancha nem ruga” como disse Paulo em Efésios 5:25-27:

Maridos, que cada um de vocês ame a sua esposa, como também Cristo amou a igreja e se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.

Temos que entender que a Igreja não precisa ser charmosa, atraente ou inofensiva a pessoas mundanas. Sim, pois o Evangelho é uma ofensa, como Paulo também disse em 1 Cor.1:18-25:

Certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, ela é poder de Deus. Pois está escrito: “Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos inteligentes.” Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o questionador deste mundo? Não é fato que Deus tornou louca a sabedoria deste mundo? Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, Deus achou por bem salvar os que creem por meio da loucura da pregação. Porque os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria, mas nós pregamos o Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios. Mas, para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que a sabedoria humana, e a fraqueza de Deus é mais forte do que a força humana.

Como disfarçar a ofensa ou a loucura do Evangelho sem descaracterizá-la? Não há como. Então para sermos a Igreja, de fato, temos que caracterizá-la pelo Evangelho. E isso requer que joguemos pelas regras de outro jogo, por assim dizer. As regras deste mundo não se aplicam.

Agora, quem pensa que a Igreja assim se apagará está redondamente enganado. Uma igreja que vive pelas regras do Reino terá que depender do poder do Espírito e não do mercado. Dependerá do mesmo Espírito que veio para convencer o mundo do pecado, da morte e do juízo eterno. Quem neste mundo quer ouvir sobre pecado, morte ou juízo? Ninguém. Mas temos que anunciá-lo assim mesmo. É o Evangelho puro e simples. Não é o evangelho light, nem o evangelho relevante, nem o evangelho social. Mas, é o único Evangelho verdadeiro.

WM

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