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Servimos a Deus ou a nós mesmos?

Por Kent Hughes 

Hoje, definitivamente, serviço e sacrifício não estão na moda. Os “grandes” deste mundo deleitam-se em tronos e dão ordens. Eles medem seu poder pelo número de pessoas que comandam. Eles não servem — são servidos. Os que estão em posições elevadas expressam a antítese do exemplo de Cristo.

Para sermos honestos, isso também se aplica a grande parte da Igreja. Existe uma mentalidade — sabe-se lá de onde vem — que define o sucesso como um tipo de senhorio: sentar-se na poltrona de honra, ser o convidado festejado em almoços, falar para grandes multidões, edificar monumentos, colecionar títulos honoríficos etc. Chame-a como quiser, essa é uma filosofia que valoriza o aspecto relacionado a ser servido.

Lembro-me muito bem de quando Barbara e eu participamos de um retiro de ministros do Evangelho no qual o palestrante principal, ele também um pastor, nos disse que se tivéssemos desejos extravagantes de bens materiais, era desejo de Deus que os nossos desejos se cumprissem. Seu argumento? O Salmo 37.4: “Deleite-se no Senhor, e ele atenderá aos desejos do seu coração.” Assim, ele nos disse que, se estivéssemos nos deleitando no Senhor e quiséssemos possuir um Cadilac (como o do palestrante), essa era a vontade de Deus! “Afinal, os servos do Rei viajam de primeira classe.” Não importa se essa é uma exegese defeituosa! Não importa se são deduções simplistas e não bíblicas acerca dos desejos dos regenerados! Não importa se o símbolo do Cristianismo é a cruz!

Fé é isso, tomar posse e decretar! Você pode ter o que quiser, basta não duvidar. Então, faça sua “lista de desejos” e continue crendo. E você viverá perpetuamente recebendo.

Para aqueles que pensam assim, o Cristianismo existe para dar-me a vida eterna, aumentar a minha saúde física, mimar o meu corpo, aumentar o meu poder, elevar o meu prestígio e dar-me dinheiro para adquirir qualquer coisa que o meu coração deseje.

Para um ministro do Evangelho, é realmente possível viver assim? É claro que sim! Leia a sua Bíblia: os discípulos estavam dirigindo-se para a mesma concessionária de Cadilacs. Leia a história da Igreja. Leia sobre os atuais escândalos envolvendo a Igreja no jornal. Leia seu próprio coração e ouça as palavras do poeta Robert Raines:

Sou como Tiago e João
Senhor, eu meço as outras pessoas
em termos do que elas podem fazer por mim;
como elas podem promover meu programa,
alimentar meu ego,
satisfazer às minhas necessidades,
dar-me vantagem estratégica.
Eu exploro pessoas,
aparentemente por tua causa,
mas verdadeiramente por causa de mim mesmo.
Senhor, eu me volto a ti
para obter vantagem
e favores especiais,
tua direção para os meus esquemas,
teu poder para os meus projetos,
tua sanção para as minhas ambições, teus cheques em branco para o que quer que eu queira.
Sou como Tiago e João.

A corrente que nos arrasta do serviço para o autosserviço é sutil e, frequentemente, imperceptível. É claro que uma correnteza gradual como essa também nos reboca do sucesso para o fracasso. Precisamos ter consciência desse perigo e perguntar a nós mesmos: já servimos a Deus e estamos agora servindo a nós mesmos? Estamos em processo de fazer essa mudança, apenas nos deixando à deriva levados pela corrente? Como podemos reassumir nosso compromisso com ministérios de serviço, seguindo o exemplo de Cristo?

Ao fazerem um retrospecto, talvez os discípulos tenham entendido, assim como nós, que no ritual de lavagem dos pés Cristo retratou toda a sua vida de serviço, desde sua Encarnação até seu ministério terreno, sua morte e sua ascensão:

• Ele “se levantou da ceia”. Como na Encarnação, Ele se levantou do lugar de comunhão com Deus Pai e o Espírito Santo.

• Ele “tirou Suas vestes”. Ao longo de seu ministério na terra, Cristo deixou sua existência em glória temporariamente de lado. “Que, embora sendo Deus não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo tornando-se semelhante aos homens” (Filipenses 2.6,7).

• “Ele despejou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava vestido”. De maneira semelhante, Cristo despejou seu sangue na Cruz para lavar os pecados da humanidade culpada (Filipenses 2.8).

• “Após ter lavado seus pés, tomado suas vestes e reclinado novamente à mesa…” “Depois de ter realizado a puri”cação dos pecados, ele se assentou à direita da Majestade nas alturas” (Hebreus 1.3).

Tudo na vida de Jesus exclama serviço! A expressão final e definitiva da sua servidão foi a Cruz. Ali, pendurado na Cruz, estava o Servo por excelência, prestando seu serviço final e definitivo.

Não importa onde possamos estar no caminho do serviço, existe algo que todos precisamos fazer se desejamos ser servos: olhar para a Cruz. Ela é o ponto culminante da vida de servo de Cristo, exatamente como Ele dissera: “Nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20.28; Marcos 10.45).

Então, eis aqui um segredo do ministério bem-sucedido: quando mantemos nossos olhos na Cruz, desejamos servir. Amigos e colaboradores, se temos nos desgastado sob nossos fardos ministeriais, possivelmente imaginando se acaso estamos seguindo nossas próprias fantasias, precisamos vislumbrar Cristo lavando os pés de pescadores rudes e iletrados. Precisamos ver Cristo na Cruz lavando os nossos pecados como o Servo por Excelência. E, então, precisamos sussurrar: “Senhor, tu lavaste os pés deles; tu lavaste os meus pecados. Eu servirei a ti e à tua igreja. Amém.”

Trecho extraído do livro “Libertando o Ministério da Síndrome do Sucesso”, do casal Kent e Barbara Hughes, lançado pela Editora Anno Domini em 2013. Diante de resultados inexperados, ambos passam a rever o conceito de sucesso no exercício ministerial. Saiba mais aqui.

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