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Será que você espera do louvor aquilo que Deus oferece? | Por Andrew McAlister

Quando possível, eu e minha esposa saímos para um jantar especial. Quando isso acontece, a Livia gosta de se arrumar, colocar um vestido bacana, fazer um penteado diferente, usar uma maquiagem que não seja a do dia a dia. Eu, prático que sou, falo para ela que não precisa, mas ela gosta. E, apesar da minha praticidade, óbvio que gosto também.
Jantamos juntos e nos vemos praticamente todos os dias. Mas naquele momento ela (e eu, por consequência) se arruma um pouco mais que o normal. Ela diz que quer ficar bonita para mim e eu respondo que ela é tão linda que nem ligo quando ela cobre sua beleza com maquiagem e outras coisas mais. Daí ela diz que eu sou mentiroso e começa a “briguinha” de casal, nossa paquera de vida de casado.
Amo a minha esposa, a qualquer dia, a qualquer hora. E eu sei que ela me ama também. Dizemos isso um para o outro todos os dias. E numa noite dessas, particularmente, provavelmente diremos isso mais que o normal. Afinal, quando passamos um tempo exclusivo juntos, nos lembramos um do outro, conversamos um bocado e nos “redescobrimos” em meio à correria do cotidiano.
Esses momentos são especiais e necessários, sem dúvida. Mas esses momentos não são o evento único dedicado e separado exclusivamente para tanto. Sim, a expectativa nesses momentos é maior, mas o amor e as emoções daquelas poucas horas são uma extensão do amor de todo dia. Nós não “guardamos” nossa expressão e nosso amor um pelo outro para esses encontros, nem dependemos deles para sustentar o compromisso um com o outro. Mas é bem legal quando conseguimos tirar esse tempo juntos, mesmo que seja para fazer algo tão aparentemente banal quanto sair pra jantar (apesar de comermos juntos todos os dias).
E então… será que eu só consigo amar e contemplar a minha esposa quando o clima está 100% armado para tanto? Será que eu preciso de fato de um jantar especial com a música certa e a iluminação ideal e as condições milimetricamente programadas para que eu seja capaz de me dedicar à minha esposa? Espero que não, pois se for assim, meus dias de casado estão contados. O meu amor e a expressão do meu amor por ela não podem, em hipótese alguma, estar condicionados a esses momentos especiais, por melhor que sejam. Pois, se o meu amor por ela depender necessariamente de ela se arrumar e estar de bom humor e tivermos a comida certa no ambiente certo no dia ideal, então estou colocando um fardo irreal e injusto sobre ela. A minha expectativa em relação a ela não condiz com o que ela, de fato, tem para me oferecer. Além do mais, se entro num relacionamento conjugal apenas em vista do que eu tenho para receber, então o relacionamento já está fadado ao fracasso.
Agora, quando olhamos para o cenário atual de louvor e adoração no nosso país (e até de fora do Brasil, já que importamos tanto da nossa “devoção”), será que podemos afirmar que esperamos do louvor e da adoração a Deus o que Ele, de fato, tem a nos oferecer? Ou será que temos montado um espetáculo de louvor com tanta aparelhagem que hoje sequer conseguimos louvar a Deus sem o aparato todo? Será que nossa contemplação, louvor e adoração a Deus dependem tanto de “um jantar romântico” que não conseguimos mais louvar no encontro cotidiano? Ou pior… será que ornamentamos tanto a adoração que não conseguimos nem mais enxergar a beleza por trás da maquiagem toda?
Lembrando: a beleza de Deus não é, necessariamente, uma beleza que homens valorizam. A verdade é que o desejo por Deus é algo que, desde a Queda, se torna estranho e repulsivo ao homem natural. Paulo é bastante claro sobre isso longo dos capítulos iniciais da carta aos Romanos. Rejeitamos a imagem do Criador optando por criar outras imagens para adorar, segundo a nossa própria vontade. E nisso, somos verdadeiros mestres em criar deuses a serem adorados… mas deuses que não condizem com e não são o Deus criador e soberano.
O assunto é vasto e as repercussões infinitas. O autoexame deve ser constante, mas deixo apenas a pergunta: o quanto o seu louvor e adoração, e indo além, o quanto o seu amor por Deus depende de “algo mais”? Uns pintam as paredes de preto, diminuem a iluminação e instalam grandes painéis de LED com gráficos e vídeos sensacionais, outros abolem todos os instrumentos e deixam o santuário o mais sóbrio possível. Em ambos os extremos, é possível condicionar o louvor às condições ideais de execução e performance. E em ambos os contextos, é possível que haja genuína adoração. Mas o perigo, em ambos os contextos (e qualquer outro) é que há pecadores que carecem da graça de Deus, cujos corações (sem Deus) são craques em buscar e criar qualquer outro deus para adorar.
Portanto… Não é sempre que o louvor nos agrada 100%. Às vezes tocaram aquela música que você não gosta ou colocaram um arranjo esquisito, às vezes faltou aquela levada mais pra cima ou a luz incomodou ou o dirigente disse algo fora do roteiro e a banda estava desafinada. Acontece, faz parte. Mas nada disso muda quem Deus é e o que Ele fez por nós. E nada disso deveria nos dar menos razão para louvar e adorar a Deus. Afinal de contas, Deus não fez o louvor para nos agradar, mas que pudéssemos nos alegrar Nele.
Quando você se preparar para adorar a Deus, certifique-se de que você o faz por quem Ele é e o que Ele, de fato, tem a oferecer, e não pelo ambiente projetado e preparado para o “encontro marcado” ideal. Ame e louve-o sempre, em qualquer condição que seja, pois Ele é digno de toda honra e todo o louvor, mesmo quando não o desejamos ou percebamos.

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