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Recordar é Viver | Por John McAlister

Tenho dois filhos pequenos de 7 e 5 anos de idade. Uma das nossas atividades prediletas em família é a leitura. Lemos de tudo para eles: fábulas, contos, poesia, e, é claro, a Bíblia. E, assim como é com toda criança nessa idade, eles tem suas histórias prediletas que pedem que sejam lidas repetidamente, vez após vez. É quase um ritual sagrado: “Papai, leia de novo para mim, por favor…”

Por que isso acontece? Tenho minhas impressões. Ler em família é um ato que une o lar. Quando todos se reúnem ao redor de um livro para compartilhar uma história, compartilhamos muito mais do que uma história: compartilhamos tempo, afeto, experiências, novas ideias, novos mundos, novas memórias. Além disso, quando compartilhamos histórias em comum, construímos uma identidade como família. Isso é importante até mesmo após o término da infância. Quantos não reconhecem e contam, ao se reunirem em seus encontros familiares, as mesmas histórias e memórias que compartilhamos em família? Conhecer e recordar essas histórias faz parte de quem nós somos, nos definem, nos identificam neste mundo. Daí o provérbio popular: “Recordar é viver.”

Esses princípios não fazem parte apenas da nossa experiência comum. Eles se encontram na própria Bíblia. As Escrituras Sagradas também nos ensinam que recordar é viver, enquanto que esquecer é morrer. Lembre-se, por exemplo, de quando Deus conduziu o povo de Israel, liberto da escravidão no Egito, através do deserto do Sinai até a planície de Moabe, às margens de Canaã, a Terra Prometida. Antes de entregar-lhes aquela terra, repetidas vezes Deus ordenou ao seu povo, por intermédio das palavras de Moisés registradas no livro de Deuteronômio, que eles não se esquecessem dos grandes feitos e das grandes palavras do Senhor, mas se lembrassem delas e as ensinassem às futuras gerações, a fim de que não se afastassem do Senhor:

Apenas tenham cuidado! Tenham muito cuidado para que vocês nunca se esqueçam das coisas que os seus olhos viram; conservem-nas por toda a sua vida na memória. Contem-nas a seus filhos e a seus netos. Lembrem-se do dia em que vocês estiveram diante do Senhor, o seu Deus, em Horebe, quando o Senhor me disse: ‘Reúna o povo diante de mim para ouvir as minhas palavras, a fim de que aprendam a me temer enquanto viverem sobre a terra, e as ensinem a seus filhos.” (Dt 4.9-10)

Ao estudarmos a história do povo de Deus no restante das Escrituras, portanto, observamos que, quanto mais este povo lembrava-se dos feitos e das palavras de Deus, mais eles temiam ao Senhor e prosperavam. Porém, quanto mais esqueciam da história da aliança de Deus, mais eles transgrediam as leis do Senhor e definhavam. (confira especialmente o Salmo 78)

Quando chegamos ao Novo Testamento, o padrão apresenta-se de forma semelhante a nós. Após lermos acerca dos grandes feitos e das palavras do Senhor Jesus Cristo, culminando na sua morte e ressurreição pela nossa eterna salvação, ouvimos da sua instituição do batismo e da Santa Ceia como marcos na vida do seu povo, a fim de que este relembrasse a sua grande obra de salvação e não se esquecesse da sua identidade como povo de Deus. (cf. Mt 28.18-20; 1Co 11.23-26) E, quando lemos sobre a vida dos primeiros cristãos, era exatamente isso que eles praticavam regularmente, recordando juntos os ensinos de Jesus Cristo e celebrando o batismo e a Santa Ceia, em conformidade com o ensino e a prática dos apóstolos. (cf. At 2.38-47)

Portanto, em sua própria fundação e constituição, a igreja é um povo que se recorda e que relembra constantemente aqueles atos soberanos e graciosos de Deus na História que a marcam e a identificam neste mundo: Cristo veio, Cristo morreu, Cristo ressuscitou e um dia Cristo voltará! É isso que fazemos todo domingo, anunciando e comemorando a morte e a ressurreição do Senhor e a promessa da sua volta em glória, seja em nossos cânticos, nossas orações ou nossas pregações. É isso que recordamos e celebramos a cada batismo e Santa Ceia. É isso que proclamamos juntos cada vez que recitamos o Credo dos Apóstolos, o resumo da nossa fé no Deus que criou a História, entrou na História, redimiu a História e um dia concluirá a História.

Por isso, não nos cansemos de contar e recontar essa história, a grande história do Evangelho, tanto para nós mesmos, como para os nossos filhos, e para todos os que ainda virão e nos ouvirão.

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