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O Solista e o Louvor Congregacional | Por Walter McAlister

Não costumo escrever sobre louvor. Primeiro, porque minhas ênfases – tanto no blog, quanto no podcast Café Espiritual – são direcionadas ao estudo, devoção e vida pastoral. Não que o que tenho a ponderar hoje não diga respeito a essas coisas, mas, gostaria de ponderar rapidamente sobre o assunto. O que me ocorreu recentemente é difícil de esquecer e acho que ao escrever sobre isso, consigo lidar melhor com o mal estar que me causou.

Estive num evento dirigido por colegas ministeriais muito queridos e conceituados. Tudo estava indo bem até que anunciaram que alguém viria para “fazer o louvor” – uma cantora de certo renome. Ela se levantou e começou a pregar, por assim dizer. Isso já é uma prática um tanto desagradável e, infelizmente, hábito bastante comum entre dirigentes, pois parece que se sentem na obrigação de vender cada corinho. “Sinta isso, sinta aquilo”, dizem. “Deixe a mensagem entrar no seu coração.” Ou pior: numa estrutura teológica duvidosa, falam coisas sobre Deus, nosso relacionamento com Ele e os contornos da fé que mais se justificam por uma licença poética do que realmente uma admoestação de consequência – no máximo tolerável, desde que não demore muito. Mas, costumam se perder numa tagarelice confusa e sem qualquer relevância. Melhor seria se ficasse de pé e apenas cantasse.

 

A música escolhida era conhecida – um corinho muito bom para se cantar numa congregação. Mas, logo notei que o tom estava muito acima do alcance dos que ali estavam reunidos. Quem era soprano cantou com facilidade. Já os homens tiveram que fazer um esforço hercúleo para acompanhar. Suas vozes enfraquecidas perdiam todo o vigor e robustez comuns às vozes masculinas no louvor a Deus. Certamente o tom era perfeito para a cantora que estava à frente do louvor. Aliás, ela realmente deu um show com a música. Longe de parecer um corinho, parecia uma apresentação que, em virtude da potência do sistema de som, ficou muito alto para o tamanho daquele lugar. Além disso, ela começou a fazer as firulas de melismas de uma solista. Sem seguir a melodia, fez uma apresentação espetacular. No fim, segurou a penúltima palavra, interrompeu a música para dizer algo, e só depois soltou a voz com a última sílaba em tom triunfante e apoteótico. Não fosse o bastante fazer isso uma vez, ainda fez o mesmo uma segunda vez na sequência do louvor que ela ministrou.

Deve haver alguma função legítima na igreja para cantoras assim, mas ainda não estou muito convicto sobre qual seria. Mas de uma coisa tenho absoluta certeza: momentos como esse não servem como louvor congregacional; são uma apresentação da voz se valendo de músicas que seriam de louvor congregacional. Na prática, o que acontece é uma espécie de duelo entre quem “lidera” e a congregação. E como aconteceu naquele dia, quase sempre a congregação perde. As pessoas se intimidam e acabam ficando como refém e espectadora de alguém que tem uma voz notável, mas que não tem a menor noção do que seja conduzir um período de louvor congregacional.

Para ser um bom líder de louvor, tem que ser afinado, obviamente. Além disso, tem que liderar sem sobressair. Afinal, louvor congregacional é por definição a expressão da congregação. Cantores que se destacam por sua habilidade vocal deveriam ser mais discretos, cantar mais baixo, talvez até fora do microfone, pois o apoio vocal no louvor congregacional deve ser reservado para quem não faz questão de aparecer e canta o suficiente para dar o tom e manter a linha melódica, junto com a congregação.

Um pastor serviria muito melhor a sua igreja se ele mesmo liderasse o louvor. Ou, no caso de uma falta de aptidão vocal, que chame alguém que é suficientemente afinado, mas não um cantor super habilidoso para o louvor. Os cantores espetaculares, por sua vez, devem limitar suas “apresentações” a solos na igreja, seja num ofertório ou cantata, e a gravar músicas a serem compartilhadas. Porém, chamá-los para “fazer um louvor”, infelizmente, costuma tender mais para uma apresentação da sua voz que um momento de louvor e canto congregacional.

WM

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