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O professor “açougueiro vegano” | Por Gabriel Carvalho

Há alguns meses, em um shopping próximo à minha casa, inaugurou um empreendimento deveras curioso: um açougue vegano. Não preciso dizer que, pelo menos no início, foi uma explosão de visitas, com pessoas – assim como eu – curiosas e intrigadas com a ideia de negócio. Ora, colocando as estratégias de marketing à parte, o que o nosso senso comum diria? “Açougue vegano não existe!”. É simplesmente uma pura contradição de termos.

Um açougue pressupõe carne. Vermelha. Suculenta. Pronta pro churrasco. Não há substituto no reino vegetal bom o suficiente para tomar o lugar da carne. Fora que o trabalho do açougueiro com as diferentes peças bovinas é extremamente específica. Ninguém em sã consciência crê que há semelhanças entre limpar uma alcatra ou fazê-lo em um pedaço de jaca. A carne é a matéria-prima essencial e indispensável para o açougue.

Alguns professores têm trabalhado como um açougueiro vegano. Alguns desses até mesmo chamam a atenção, com performances pirotécnicas em classe, porém sem profundidade. Por vezes possuem uma ótima oratória, mas pecam em suas rasas apresentações de suas matérias. Mas como isso acontece? Qual a razão disso? O professor “açougueiro vegano” surge quando abandona a força motriz do conhecimento e do aprendizado: a leitura, os livros, que são a “carne” dos professores. Será que é possível existir um professor que não seja um servo devotado aos livros? Isso não seria uma contradição?

No início do texto, mencionei que o empreendimento despertou a curiosidade das pessoas, por conta do marketing em prol de algo improvável: um açougue sem carne. E não é essa exatamente a propaganda de muitos mestres? “Aqui não tem teoria, é só prática”, ou numa versão gospel, “A letra mata e o espírito vivifica” (fazendo uma exegese distorcida do versículo, assunto para uma ocasião oportuna).

Alguns se gabam de pautar seus ensinamentos meramente numa experiência de vida, e não em conhecimento, em leituras, em pesquisa de autores sobre o tema. “Não é isso que as pessoas querem ouvir”, “A gente precisa ser relevante, falar coisas que as pessoas desejam ouvir” – com frases como essas, caminhamos cada vez para a produção de mestres em nossas igrejas que se afastam, dia após dia, das leituras e reflexões necessárias que o trabalho intelectual proporciona.

Num segundo momento, mencionamos a ideia geral de que um açougue pressupõe a existência de carne, e que esta é uma matéria-prima obrigatória para o trabalho do açougueiro. Fazendo a ponte com o ensino, não há como formar um real professor sem leitura – eu iria além, sem uma carga relevante, constante e crescente de leituras. O professor é o resultado de seu trabalho de dedicação à leitura. Quanto mais lê, mais tem a acrescentar. Quanto menos, mais rasas serão suas explanações. Essa é uma lei inexorável, tal qual a lei da carne e do açougue.

Uma carne “vegetal” pode até saciar por um momento, e ter algum tipo de nutriente importante, mas não existe nada como a experiência de se alimentar da carne real. Qualquer simulacro de carne, por mais que chegue próximo, não nos proporcionará a experiência original. Da mesma forma, por mais que tais aulas e palestras sejam cativantes, com mestres carismáticos, tal experiência nunca será tão transformadora quanto aquela proporcionada por um mestre devotado aos livros e ao conhecimento.

Pode não haver pirotecnia, o professor pode não ser famoso, mas a decisão de se dedicar à intelectualidade e ao conhecimento que os livros nos proporcionam farão desse mestre uma fonte que verterá sempre um conhecimento fresco, atual e fundamentado das verdades que leciona. Uma experiência de aprendizado “raiz” só temos com professores “raiz”, os nossos “açougueiros de avental manchado de vermelho”, vencedores da luta sanguinária com os livros, e com o conhecimento que se arranca deles.

Ame os livros. Tenha muitos deles. Se possível, possua uma biblioteca. Caro professor, os livros são sua principal ferramenta de trabalho. Da mesma forma que um açougue sem carne está destinado à falência, um professor sem livros não tem futuro no magistério. Acima de tudo, tenha em estima o principal deles, o grande farol espiritual e intelectual do mestre cristão, a Palavra de Deus. O Deus revelado num livro. Isso tem muito a dizer para nós e sobre nós. Deus o abençoe!

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