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Enjôo

enjooLembro-me que quando criança, durante viagens longas, sentia um certo desconforto pelo caminho: tonturas, enjôos e ânsias de vômito. Alguém disse a outrem, que disse a fulano, que disse a beltrano e que disse à minha mãe, que um determinado medicamento ajudava. Ela não consultou nem carne nem sangue, me enfiava pela goela um daqueles e dizia: É pra você não se sentir mal pelo caminho. Mas, quem foi que disse que ajudava? Quando o veículo entrava em trechos sinuosos da estrada, lá estava eu desejando pôr os bofes pra fora. Interessante, é que a medida que fui crescendo, também fui melhorando, melhorando, melhorando, até deixar de sofrer do problema. Mal sabia eu, que no auge da meia idade, nos primeiros ensaios da velhice, iria sofrer outra vez de enjôos intermitentes, e agora sem poder contar com o tal medicamento milagroso. Não fazia ideia de que a estrada da vida era tão cheia de curvas perigosas.

Como qualquer um, estou exposto a uma avalanche de notícias sobre corrupção, tráfico de influências, roubos, desvios de verbas e quebras de sigilos fiscais. A medida que faço a viagem da vida e tento “contar os meus dias para alcançar um coração sábio”, tenho de novo aquela sensação estranha que me importunava quando criança, sempre que saía do Rio para visitar parentes na zona da mata mineira: enjôo. Já tentei de tudo, da oração à alienação, mas o incômodo não passa. Aí, quando tapo os ouvidos por uma semana, sou surpreendido pelas práticas abusivas e desonestas de levantamento de fundos dessa ou daquela igreja; pelas técnicas e discurso deste ou daquele sobre resultados; pelas pregações vazadas por uma teologia de botequim (aquela que só se encontra na boca de bêbado)… Confesso que só não caio de cama por causa da graça de Deus!

Entendo que nada tende a melhorar. Não se trata de pessimismo ou falta de esperança, trata-se de compreensão do texto sagrado e um pouco de discernimento que ainda me resta. Terei que aprender a conviver com este enjôo incurável. Mas, o pior de tudo, não é assistir a esta total desmoralização do Cristianismo evangélico no país, mas é encontrar gente que defenda os processos malignos e mercantilistas praticados por alguns e os classifique na mesma categoria que eu suponho estar. Você deve imaginar como me sinto! Vivo suspirando, chorando pelos lugares secretos, buscando à Deus por um pouco de Vida, em meio ao cheiro nauseabundo de morte que me embrulha o estômago e agora vem embrulhando também o coração. Até quando Senhor!?

Sabe, não dá pra fingir que tudo está bem. Não dá pra fechar os olhos e só se concentrar no seu canteiro enquanto toda floresta está sendo devastada. Não dá pra ver mãos erguidas, músicas bem cantadas, templos cheios e entender que foi isso que Jesus tinha em mente ao ordenar: “Ide e fazei discípulos de todas as nações”. Com certeza Ele estava se referindo a algo maior. Mas, quem aí quer este algo maior? Quem está interessado numa igreja sem os contornos próprios de uma cultura falida? Quem deseja Cristo e nada mais? Quem se propõe a adorar sem toda esta roupagem de espetáculo?

Finalmente, fico enjoado com o crescente número de adeptos aos mais variados movimentos evangélicos e tão poucos interessados no Evangelho. Isto me embrulha o estômago, mas principalmente o coração.

Pr. Weber

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