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Assaltaram a Gramática | Por Marcelo Maia

Se você viveu a década de 80, certamente se lembrará de uma música dos Paralamas do Sucesso com o título acima. Concordamos com os autores da música: a gramática foi dramática e violentamente assaltada.

Mas, o que é gramática? E quem a assaltou?

Talvez a resposta à primeira pergunta seja mais fácil e muitos já devem-na estar elaborando a partir de lembranças, boas ou ruins, dos tempos de escola. Os substantivos e suas classificações, as temidas preposições, os variados advérbios, tudo isso faz parte do que chamamos de gramática. E, como dissemos no texto anterior, este é o campo da linguagem, o mais fundamental ato cultural humano, por meio do qual exercemos domínio sobre as coisas,
trazendo-as para dentro da nossa esfera de conhecimento.

É pelo aprendizado da gramática que o aluno desenvolve sua habilidade de entender; ele aprende a receber o conhecimento de forma precisa. 1

Há alguns dias tive o seguinte diálogo com meu filho:
– Pai, todas as bandeiras são quadradas?
– Não, filho, há bandeiras retangulares também.
– Mas retangular é quadrada…
– Não Lucas. Quadrado é quadrado; retângulo é retângulo. São duas figuras geométricas semelhantes, porém distintas. E é por isso que cada uma tem um nome.

Percebeu o que estava ocorrendo? Para meu filho, o fato da figura geométrica ter 4 lados a tornava um quadrado. Porém, a palavra “quadrado” designa tão somente a figura geométrica com 4 lados iguais. Cada coisa tem seu nome; isso é conhecer de forma precisa; isso é gramática.

Antes de desenvolver melhor esse pensamento, deixe-me adiantar a resposta à segunda pergunta – quem assaltou? De forma bem objetiva, a culpada do crime é a pedagogia moderna.

Em algum momento da história passou-se a acreditar que guardar os nomes das coisas era um exercício infrutífero para o pensamento crítico e para a auto-expressão. Deram até um nome jocoso para a memorização dos nomes: decoreba!

Ocorre que o tempo mostrou que, sem guardar os nomes das coisas, era impossível pensar sobre elas. Parece simples e óbvio dito desta forma, mas foi exatamente assim que a pedagogia moderna imaginou o aprendizado: privilegiando a auto-expressão, a opinião, o tal “pensamento crítico” e deixando de lado a memorização dos nomes. Mas, como pensar e opinar sobre algo que eu não consigo sequer dizer o que é?

Dorothy Sayers, educadora do século passado (e conhecida de C. S. Lewis), em seu trabalho As ferramentas perdidas da aprendizagem, expôs, entre tantas coisas, que os alunos de sua época não sabiam definir os termos e eram incapazes de entender os sentidos diferentes nos quais um termo pode ser usado. Em outras palavras, não sabiam a gramática.

Sayers propôs o retorno às antigas ferramentas da educação clássica, as matérias que compunham o trivium medieval: gramática, lógica e retórica. Vamos restaurar o status anterior ao assalto! E é aqui que retomamos o ponto inicial sobre a definição de gramática.

A professora de Oxford fez uma contribuição original ao ensino do trivium, quando afirmou que cada disciplina tem suas gramática, lógica e retórica próprias. Desse modo, cada uma das disciplinas que estudamos no currículo escolar tem um vocabulário que lhe é peculiar e este deve ser guardado, memorizado.

O aprendizado de gramática, portanto, não se limita às regras para a correta expressão em algum idioma. Ele alcança todas as disciplinas. Podemos falar na gramática da história, sendo esta composta por datas, nomes, locais; na gramática da matemática estão os números, as operações básicas, as formas geométricas; a gramática da biologia envolve o conhecimento dos órgãos, tecidos, classificações dos animais.

Você pode estar se perguntando nesse momento: qual seria a gramática da Bíblia e da Teologia?

Creio que já tenhamos condições de responder sem pestanejar: a ordem e os títulos dos livros da Bíblia, os nomes dos personagens, os fatos, as datas (ordem cronológica), os atributos de Deus, e por aí vai.

Como dissemos acima, somente após a memorização desse vocabulário (o que se assemelha à entrada de dados em um computador) é que o discípulo de Cristo estará apto para pensar em termos de teologia sistemática, ou teologia bíblica (o que pode ser comparado ao processamento dos dados).

No próximo texto falaremos sobre a lógica e como ela se aplica ao estudo das Escrituras. Até lá!

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1 BLUEDORN, Harvey e Laurie. Ensinando o Trivium, vol 1 – o trivium teórico. São Paulo: Monergismo, 2016.

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