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As Duas Tarefas | Por John McAlister

Nas últimas décadas, alguns pastores e pensadores cristãos têm soado o alerta de que não é suficiente alcançar as multidões para Jesus sem se importar com a formação de uma mente cristã. Homens como John Stott (Crer é Também Pensar; ABU), Harry Blamires (A Mente Cristã; Vida Nova) e John Piper (Pense: A Vida da Mente e o Amor de Deus; Fiel) têm nos fornecido argumentos contundentes neste sentido, ecoando o próprio clamor do apóstolo Paulo quanto à necessidade de cultivarmos uma mente cativa a Cristo para a glória de Deus. (cf. Rm 12.1-2; 2Co 10.5; Fp 4.8)

Contudo, um dos alertas mais contundentes das últimas décadas permanece desconhecido de muitos no mundo protestante evangélico. Na ocasião da inauguração do Centro de Estudos Billy Graham em 13 de setembro de 1980 no campus da Wheaton College – onde o renomado evangelista internacional obteve sua graduação – o Dr. Charles Habib Malik – ex-embaixador do Líbano aos EUA e ex-presidente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e da Assembleia Geral da ONU – proferiu sua famosa palestra intitulada “As Duas Tarefas”.1

Sobre a relação entre a evangelização e o cultivo da mente cristã, o Dr. Malik disse:

“…[E]vangelismo é sempre a tarefa mais importante a ser executada pelo ser humano mortal. Fazer com que o homem orgulhoso e rebelde e autossuficiente – e o orgulho, a rebeldia e a autossuficiência são a mesma coisa – caia de joelhos e reconheça, em lágrimas, a majestade, a graça e o poder real de Jesus Cristo é o maior acontecimento na vida de qualquer homem. De fato, assim como todo homem está ‘marcado’ para morrer, todo homem está ‘marcado’ para este acontecimento em sua vida. E aqueles que estão engajados em intermediar este acontecimento, os evangelistas, são os proclamadores supremos de Deus. Mas, assim como nenhum de nós está sozinho com Deus e a Bíblia, mas estamos presentes uns com os outros, tampouco possuímos somente uma alma e uma vontade que têm que ser salvas, mas também um raciocínio que tem que ser afiado e satisfeito. Este raciocínio pergunta sobre tudo, incluindo Deus, e nós buscamos e amamos e adoramos o Senhor Deus de toda nossa força e de todo nosso entendimento. E por estarmos presentes uns com os outros, estamos argumentando e raciocinando uns com os outros o tempo todo. De fato, cada frase e cada discurso é um produto do raciocínio. E, por isso, não há vergonha nem pecado em disciplinar e cultivar nosso raciocínio ao máximo; é uma necessidade, uma obrigação e uma honra fazê-lo. Portanto, se o evangelismo é a tarefa mais importante, a tarefa que vem logo atrás – não em décimo lugar, tampouco em terceiro lugar, mas em segundo lugar – não é política, nem economia, nem a busca por conforto e segurança e facilidades, mas descobrir exatamente o que está acontecendo com a mente e o espírito nas escolas e nas universidades.”

Sobre a preocupação necessária da igreja com a formação da mente da próxima geração, ele afirmou:

“[…] A igreja e a família, cada uma delas já envolvida em outros confrontos e desafios, está lutando uma batalha perdedora no
que diz respeito à influência das universidades sobre a saúde espiritual e a integridade da nossa juventude. Toda a pregação
do mundo e toda a atenção dos melhores pais, entre os quais não há problema algum, significará muito pouco, ou quase nada, contanto que aquilo ao qual os nossos filhos são expostos dia a dia por quinze a vinte anos praticamente cancele, tanto moralmente como espiritualmente, o que eles ouvem, veem e aprendem em casa e na igreja. Portanto, o problema da escola e da universidade é o problema mais crítico que aflige a civilização ocidental.”

Sobre o impacto do Evangelho sobre o nosso mundo, ele disse:

“Já que Cristo é a luz do mundo, precisamos fazer com que a sua luz venha esclarecer o problema da formação da mente… O desafio não é apenas ganhar almas, mas salvar mentes também. Se você ganhar o mundo inteiro e perder a mente do mundo, você logo descobrirá que você não ganhou o mundo. De fato, é possível que você tenha perdido o mundo. Para que você cresça e obtenha êxito intelectualmente, é preciso sacrificar ou ignorar Jesus? Para render toda a sua vida a Jesus, é preciso que você sacrifique ou ignore o estudo e a pesquisa? Sua rendição aos estudos e à pesquisa é essencialmente incompatível com a sua rendição a Jesus Cristo? Estas são as perguntas cruciais e eu rogo para que vocês não pensem que as respostas são mais simples do que realmente são. Eu os advirto: as respostas certas podem ser bem mais perturbadoras.”

Sobre o ativismo e o imediatismo que tem sacrificado os esforços da igreja quanto a evangelização e o discipulado da mente, ele foi contundente:

“…[S]e cristãos não se importarem com a saúde intelectual dos seus filhos e pelo destino da sua própria civilização, uma saúde e um destino tão interligados à condição da mente e do espírito nas universidades, quem mais se importará? A tarefa é gigantesca e para que ela seja cumprida, assim como eu creio que Cristo deseja que ela seja cumprida, pessoas precisam viver incendiadas por ela. Não basta viver incendiado pelo evangelismo apenas.”

“As pessoas estão com pressa para sair da faculdade [ou da escola] para começar a ganhar dinheiro ou servir na igreja ou pregar o evangelho. Elas não têm ideia do valor infinito de gastar anos de lazer conversando com as grandes mentes e almas do passado e, assim, amadurecer e afiar e alargar a sua capacidade de pensar… Cristãos responsáveis enfrentam duas tarefas: salvar a alma e salvar a mente… Se for da vontade do Espírito Santo que demos atenção à alma, certamente não é da sua vontade que negligenciemos a mente. Nenhuma civilização pode durar se mantiver uma mente tão confusa e desordenada como a que existe hoje.”

Que o Senhor nos dê graça para dedicarmos a atenção e a importância devida em nossas vidas, em nossos lares e em nossas igrejas ao cumprimento da nossa tarefa dupla: resgatar a alma e a mente desta e das próximas gerações para a glória de Cristo!

  1. O texto desta palestra histórica está disponível na íntegra no livro editado por William Lane Craig e Paul M. Gould, The Two Tasks of the Christian Scholar: Redeeming the Soul, Redeeming the Mind (Crossway, 2007).

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